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Portimão
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Portimão Núcleo
urbano e evolução histórica
O núcleo urbano de Portimão remonta ao
século XV, tendo sido nesta data iniciada a
construção das suas muralhas, as quais limitavam
um polígono irregular, que se estendia da margem do rio para
o interior.
Na sequência da formação deste
núcleo urbano e do seu crescimento, esta terra recebe o
titulo de vila e o foral em 1504, por D. Manuel I.
Porém, a partir do século XVIII, as muralhas
já não satisfazem as necessidades militares de
defesa, tendo sido absorvidas pelas habitações
construídas extra-muros, resultantes da expansão
da vila Ainda hoje esse facto pode ser constatado através
dos panos das muralhas adossados às casas, entre o Postigo
dos Fumeiros e a Porta da Serra e entre esta e a porta de
São João.
Dado o desenvolvimento económico e social e o consequente
crescimento demográfico e territorial de
Portimão, Manuel Teixeira Gomes, personagem ilustre da
terra, escritor, comerciante e político, eleito presidente
da República em 1923, eleva Portimão a cidade em
1924, daí resultando a escolha desta datapara assinalar as
comemorações do dia da cidade.
Pré-história
Alcalar
Em Alcalar, na freguesia da Mexilhoeira Grande, a 9 km de
Portimão, existe um conjunto de vestígios
pré-históricos, testemunhando a
existência de uma das primeiras comunidades locais conhecidas
do 4º e 3º milénios a.C.. Este conjunto
pré-histórico é constituído
por duas dezenas de sepulcros, um povoado central e cinco
periféricos. O local apresentava uma gama ampla de recursos
e factores naturais, como um vasto lençol de água
que compreendia a ria de Alvor e a ribeira da Torre do Farelo e do
Arão, que permitia a subsistência do grupo,
justificando a escolha do espaço para a sua
implantação. Aí praticavam
actividades, tais como a agricultura, pastorícia,
caça, marisqueio, pesca, moagem, tecelagem, olaria,
metalurgia do cobre, entre outras. A necrópole evidencia-se
pela grande riqueza e diversidade dos tipos de
construção dos monumentos funerários,
caracterizados por três formas distintas, designadas de
hipogeu, anta e tholos. Dada a importância do conjunto foi
classificado Monumento Nacional e o IPPAR restaurou e enquadrou os
monumentos n.º 7 e nº 9, que se encontram
visitáveis através do Centro Interpretativo de
Alcalar.
Arquitectura Religiosa
Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição
Dentre os edifícios religiosos destacam-se: a igreja matriz
Nossa Senhora da Conceição, construída
no século XV (1476), de fisionomia barroca e com um portal
gótico. Esta foi profundamente alterada ao longo dos
séculos, designadamente em consequência do
terramoto de 1755, mais não restando do edifício
original que o seu pórtico principal e as pias de
água benta em grés de Silves, com
decoração Manuelina.
Colégio dos Jesuítas
Em 1660 deu-se ainda o início da
construção do edifício do
Colégio dos Jesuítas, na Praça da
República, em frente do qual se situava o rossio e o
pelourinho. Esta igreja foi recentemente objecto de obras de
conservação e restauro da sua fachada e
exteriores, valorizando assim a área envolvente.
Convento de São Francisco
O convento de São Francisco foi construído no
séc. XVI, por volta de 1530, junto ao rio a partir de uma
doação de casas de Simão Correia,
capitão de Azamor, aos Padres Observantes da
Província de Portugal. No século XIX,
após a extinção das Ordens e a venda
do seu património, este edifício teve
várias finalidades, desde depósito de
cortiça, a local ligado à
construção naval e às conservas da
empresa Júdice Fialho.Em 1983 é reconhecida
oficialmente a sua importância enquanto Imóvel de
Interesse Público, permanecendo na actualidade propriedade
privada dos herdeiros de Júdice Fialho.
Arquitectura Militar
Fortaleza de Santa Catarina
A necessidade de defesa do rio e das populações
ribeirinhas das margens do Arade, contra as incursões do
corso e pirataria, levou a que, em 1621, o engenheiro italiano
Alexandre Massai, ao serviço da coroa portuguesa, elaborasse
um estudo sobre as hipóteses defensivas do rio Arade.
Elaborou desenhos de três pareceres relacionados com a
construção de uma fortaleza na ponta da Praia da
Rocha, no sítio de Santa Catarina, nome da santa a que se
prestava culto na ermida aí existente, já que
aquela oferecia boas condições de defesa da barra
do rio.
A construção incluiu um fosso e ponte
levadiça diante da entrada a Norte, de que hoje
já não restam quaisquer vestígios.
Porém, dessa construção do
século XVII, existe ainda a face norte da muralha que se
vislumbra quando se chega à fortaleza, bem como restos de
muros a Nascente e a Poente. Para além disso, existem seis
canhoeiras (abertura efectuado nos parapeitos através da
qual as bocas de fogo atiram) sobre o muro da porta de entrada e
três a Poente. No interior da fortaleza encontra-se a capela
de Santa Catarina que passou para o interior da
construção, já que não
podia ficar no exterior do núcleo fortificado. Existem
também algumas casas térreas que serviram de
posto da Guarda Fiscal, funcionado actualmente como
dependência da Capitania do Porto de Portimão. A
partir da década de sessenta este miradoiro foi gradualmente
sendo adaptado a zona de lazer onde se construíram
restaurantes e se organizaram bailes e outras actividades culturais e
recreativas. Actualmente, esta zona perdeu praticamente todas as
conotações com a vertente militar, encontrando-se
sobretudo associada a rituais de lazer, patente em espaços
como as esplanadas, ou enquanto lugar de passeio e um excelente
miradouro sobre o oceano, sobre as falésias de Ferragudo,
Portimão e Lagos.
Arquitectura Civil
Palácio Bívar
Dos edifícios civis destacam-se o Palácio
Bívar, construído no Largo do Sapal, na
última década do século XVIII, com
traça neo-clássica e reminescências
barrocas. Pertencente à família Bívar,
influente na política local e promotores de
vários melhoramentos na terra, encontrando-se actualmente
aí instalada a Câmara Municipal de
Portimão.
Fábrica Feu
Reconhecendo a importância da indústria de
conservas de peixe no contexto de desenvolvimento económico
e social local e actualmente enquanto parcela fundamental do
património industrial e da memória colectiva
local, o município de Portimão adquiriu em 1996 a
antiga fábrica de conservas Feu, construída no
final do século XIX, com vista ao seu reaproveitamentocomo
museu. No âmbito da divulgação da
história local, desde a pré-história
ao turismo, o projecto de musealização da
fábrica pretende reflectir sobre a identidade, o
território e a sociedade local, sendo que a vida industrial
e o desafio do mar estarão icomo museu. No âmbito
da divulgação da história local, desde
a pré-história ao turismo, o projecto de
musealização da fábrica pretende
reflectir sobre a identidade, o território e a sociedade
local, sendo que a vida industrial e o desafio do mar
estarão igualmente presentes como núcleo de forte
ligação à cultura marítima
do município e da região.
Aí, enquanto não se iniciam as obras de
adaptação ao futuro museu, previstas para 2004,
realizam-se exposições temporárias,
cujo destaque vai neste Verão de2003, para a
exposição "Da Madeira ao Barco - Os Estaleiros de
Portimão".
Ponte Rodoviária
O desenvolvimento socio-económico da região levou
à criação de algumas estruturas
locais. No último quartel do século XIX, a zona
ribeirinha vê transformada a sua paisagem com a
construção de um aterro no rio iniciado em 1863,
com vista à introdução da ponte
rodoviária, construída pela Companhia Five Lille,
sob a direcção do engenheiro Bonnet, com
início em Janeiro de 1875 e conclusão e o
escoamento das mercadorias provenientes do mar e do interior. Custara
179.946$00 e levou quase dois anos a ser construída.
A ponte rodoviária era uma pretensão dos
portimonenses, pois a vila assumia-se cada vez mais como centro
comercial e um polo central da bacia do Arade.
Esta ponte tornou-se um prolongamento do passeio público do
cais que, "nas noites de Verão, se [a] percorria de um lado
ao outro, para olhar o rio, as luzes da vila, Ferragudo ou a fortaleza
de Santa Catarina.".
Ponte Ferroviária
A ponte ferroviária foi construída em 1915 pela
Empresa Industrial Portuguesa.
A ponte é metálica, com 300 m de comprimento e 6
tramos dotados de vigas em arco de ferro, assente em pilares de
cantaria.
Barca de Passagem
Antes da construção das duas pontes, a travessia
das margens do Arade era feita através de barcas, a partir
do Largo da Barca, junto à ponte rodoviária,
actualmente funcionando como um dos locais mais
característicos da zona ribeirinha, onde se instalaram
vários restaurantes de peixe assado. A barca transportava
pessoas e mercadorias e a sua actividade terminou com a
construção das pontes.
Molhes
Desde 1929 que o porto de Portimão entrou numa fase activade
melhoramentos, baseado em dragagens, de forma a incrementar o movimento
dos navios de pesca e de pequena cabotagem. Em 1956, constroem-se os
molhes de entrada na barra, tornando-a uma das mais seguras do
país.
Espaços Públicos
A zona ribeirinha foi ainda palco privilegiado das sociabilidades da
época. Frequentada enquanto local de diversão,
esta acolheu vários espaços
lúdico-culturais muito procurados:
Praça Manuel Teixeira Gomes
A actual Praça Teixeira Gomes, denominada, durante a
monarquia Praça Visconde Bivar e compreendendo o
espaço entre o Jardim Bivar e a Casa Inglesa, foi assim
baptizada em 1950, em homenagem ao antigo Presidente da
Républica, Manuel Teixeira Gomes, personagem ilustre de
Portimão, escritor, comerciante e político.
Com a euforia dos anos 20, esta praça de raiz oitocentista
adquiriu uma vida enorme com a criação de
café-restaurants onde se organizavam bailes.
Coreto
No centro da Praça existia um coreto, que desde 1925, ano da
sua inauguração, era palco de concertos
frequentes, geralmente anunciados na imprensa local. De resto, todas as
festas e cerimónias oficiais culminavam sempre com um
concerto no coreto. Hoje, e após a sua
demolição nos anos 60, temos no seu lugar, um
monumento em homenagem a Manuel Teixeira Gomes.
Cinemas
Adjacente à Praça Manuel T. Gomes, no aterro do
cais, em 1912, ergueu-se um barracão onde, desde o inicio do
século funcionava o Animatógrafo, propriedade do
Sr. António do Carmo Provisório. O cinema mudo,
era abrilhantado pelos grupos musicais da terra, entre os quais o
Fraternidade Philarmónica Recreativa. Em 1926, o
barracão foi arrendado pela Orquestra Semifúsica,
uma "magnífica jazz-band", que atrairia ao modesto
barracão com telhado de zinco, os amantes do teatro e do
cinema, passando as fitas mais modernas e convidando companhias de
teatro como a Maria Matos Mendonça de Carvalho e artistas
reputados como Mirita Casimiro e Vasco Santana.
A falta de higiene, apesar dos sucessivos melhoramentos, e a
necessidade de arranjos no Largo do Dique, levou a Junta
Autónoma dos Portos a demolir o Barracão, depois
da construção, em 1938, de um outro cinema
moderno e confortável, o Cine-Teatro de Portimão,
de raiz modernista, o qual foi demolido no final do século
XX.
Jardim Bívar (1905)
Era um jardim delimitado por uma sebe de arbustos, um lago central com
repuxo, dando à entrada da vila um aspecto gracioso, fresco
e agradável ponto de encontro nas tardes estivais e noites
calmas. Em 1942, inaugura-se aí o busto do
cidadão portimonense, Visconde Bívar, no que era
então considerado o jardim principal de cidade.
Largo 1º de Dezembro
O largo 1º de Dezembro, na baixa da cidade, é
constituído pelo Palacete Sárrea, o qual foi
construído a partir de um edíficio já
existente, apresentando reminiscências barrocas num conjunto
marcadamente neoclássico. A sua
construção foi terminada entre 1793 e 1796. Este
pertenceu à família Sárrea, grandes
proprietários, desempenhando importantes cargos nas
estruturas militares e económicas, que lhes valeram a
inclusão nas oligarquias políticas municipais.
Com o advento da República, o edifício ganha
novas funções, sendo adquirido pelo executivo
camarário em 1915, onde se instalam os Paços do
Concelho, até 1956. Neste edifício funcionaram
ainda outros serviços públicos como o primeiro
Posto de Correios e Telégrafos, Biblioteca Municipal, Posto
de Turismo, Guarda Nacional Republicana e o Tribunal da Comarca.
Fronteiro ao Palacete Sárrea, existiu uma praça,
designada Praça do Município, devido à
instalação da Câmara Municipal, no
Palacete, em 1915.
Em 1931, a praça foi dotada de um jardim, cujo o acesso
é feito por uma escadaria de pedra ladeada de candeeiros
Arte Nova, representando figuras femininas voluptuosas erguendo globos
de vidros fosco.
Ladeando o jardim alinham-se bancos de azulejos com painéis
historiados ( quadros da História de Portugal), azulejos
estes colocados em Junho desse mesmo ano.
Passou à designação actual em1956,
aquando da mudança dos serviços
camarários para as actuais instalações
no palácio dos Viscondes de Bívar, no Largo
1º de Maio.
Transportes
As carrinhas
No que respeita aos transportes locais tradicionais, os mais conhecidos
e populares eram as carrinhas. Estas eram tanto utilizadas por
visitantes como por naturais da cidade, e revelavam-se como um dos
meios de transportes mais atractivos para os turistas pela sua
"tipicidade". Foi assim que se estabeleceu um negócio
à sua volta, passando a funcionar como táxis.
Geralmente, encontravam-se acessíveis no Largo do Dique
(Casa Inglesa), onde os banhistas negociavam o preço da
viagem e, muitas vezes, tinham de esperar que a mesma lotasse (levava
seis pessoas no máximo) para os conduzir à Praia
da Rocha. No IV Colóquio Nacional de Turismo (1961) faz-se
referência a essas "charretes", ou "carrinhas"
(denominação mais comum), especificando o seu
percurso como um género de passeio turístico pela
cidade. "Pelo caminho passa-se pelo "cinema, a capitania do porto, o
bairro operário, as fábricas conserveiras, os
estaleiros, os campos onde as casas se principiam a isolar e termina-se
bruscamente no alto da falésia sobranceira ao mar."
O seu percurso era feito pela estrada da que dava acesso á
Rocha, num percurso paralelo ao rio, passando pelas fábricas
Feu, pelo convento de São Francisco e pela
fábrica do Fialho, no Estrumal.
Gastronomia
A cozinha tradicional algarvia traduz uma dualidade já que
mistura a cozinha da serra e barrocal e do mar. Da terra extraem-se
produtos como as favas, ervilhas, tomate, meloa, laranja, o figo, a
amêndoa, a alfarroba. Partindo destes produtos
confeccionam-se pratos como as papas de milho, que faziam parte da
dieta alimentar quotidiana destas gentes. Do mar extraem-se desde uma
variedade de mariscos (camarão, lagostim, santola, lagosta,
percebes) a uma panóplia de espécies de peixes,
de onde se destaca a sardinha como fazendo desde sempre parte da
cozinha do Algarve, presente na dieta alimentar quer de ricos, quer dos
mais humildes. A importância do pescado justificou a
necessidade de criar formas de conservação como a
salga ou a secagem. A salga, método ancestral que vem desde
os romanos, originou a exploração das salinas
outrora muito abundantes em Portimão e nas margens do Arade,
das quais resta apenas a salina do Aleixo, na Mexilhoeira da
Carregação, no município vizinho de
Lagoa.
Ponderando ainda o facto da cozinha algarvia jogar, pela
localização geográfica e clima, com as
suas influências mediterrâneas, produtos como o
pão, o azeite, o alho e o vinho são elementos
imprescindíveis no completar da
refeição.
Hoje em dia, junto à zona ribeirinha, muito embora
disseminados por todo o Portimão, é
possível degustar algumas das iguarias típicas do
Algarve nos vários restaurantes aí existentes.
Os mariscos algarvios para além da lagosta de Sagres ou do
camarão são na sua maioria bivalves, como a
ameijoa, o berbigão, a conquilha ou o langueirão,
podendo ser apreciados na chapa ou frigideira, ou integrar receitas
como a cataplana, o xarém, o arroz de berbigão ou
langueirão e a feijoada de buzinas.
Dos pratos de peixe merecem destaque apopular sardinha assada, a
acompanhar com a salada picada de tomate e pimento assado e com a
batata de molho frio, popularmente designada "batata de cu para o ar",
ou o carapau alimado e a cavala cozida em oregãos. Segundo
referem alguns mestres da culinária algarvia, no Inverno os
carapaus são acompanhados com batata branca cozida, alho,
azeite e vinagre, ou se for tempo de batata doce, por esta em vez da
batata branca. Por outro lado, também se poderá
optar por alguns pratos mais relacionados com a vertente rural algarvia
e nesse âmbito surge, por exemplo, o xarém de
berbigão, ou seja, as papas de milho cozinhadas com
berbigão.
Para rematar esta refeição pode recorrer a uma
fruta, como a laranja, a meloa, figos ou a um doce.As
amêndoas constituem a base dos principais doces regionais
algarvios. Juntamente com o figo e a alfarroba, são desde
há longa data, colhidos e preparados para esta finalidade.
Desde as antigas ceiras de figo e de amêndoa, preparadas nos
diversos fumeiros existentes em Portimão e empregando muita
mão de obra feminina, cuja maior
produção se destinava à
exportação, à
preparação da mais fina doçaria como
os Dom Rodrigo ou os Morgados, estas iguarias são fruto do
trabalho artesanal de verdadeiros artistas locais.
Os Dom Rodrigo, doce à base de fios de ovos,
amêndoa, calda de açúcar e canela,
são doces conventuais, cujas origens se julgam reportar ao
século XVIII, mais precisamente a 1755, altura do terramoto.
Actualmente existem ainda em Portimão, muitas doceiras
artesanais e locais como a pastelaria Almeida, em frente ao Largo
1º de Dezembro, onde este doce continua a ser confeccionado
nos moldes mais tradicionais, mantendo os produtos naturais e originais
na sua cadeia de produção, evitando as
essências e outros derivados com os quais alguns adulteram o
sabor e sua consistência.
Outras doçarias que juntas a amêndoa aos figos,
são o queijo de figo, as estrelas, ou os figos cheios. O
queijo de figo é geralmente confeccionado no final do
Verão e conservado até ao primeiro de Maio,
altura em que é "libertado" e saboreado. Segundo
José Vila em "Coisas da Terra e do Mar - Sabores da cozinha
algarvia": "No dia 1º de Maio, era comum dizer-se que iam
soltar o preso, provavelmente frase alusiva ao dia que se comemora:
(...) seria o simples acto de libertar o queijo que durante longo tempo
se manteve em cativeiro, cercado pelo arco que o envolvia e o peso que
o esmagava. Pela manhã desse dia, as casas eram
surpreendidas com visitas amigas, onde se partilhavao partir do queijo,
acompanhado por aguardente de medronho. Chamava-se rolhar o Maio."
Actividades Socio-Profissionais
O rio Arade, desde o início da
ocupação humana foi alvo de diferentes formas de
aproveitamento pelas populações que nas suas
margens se fixaram. Desde fonte de energia, recurso natural (a pesca,
os processos de conservação do pescado, os frutos
secos, asmadeiras, a produção de sal), comercial,
industrial, a cultural, turístico e igualmente via de
transporte e comunicação, a importância
que o rio Arade assume no contexto local e regional, nacional, mas
também internacional pode ser atestada a partir dos
inúmeros vestígios arqueológicos que
se encontram submersos no seu leito. O município vem
chamando a atenção para este importante legado
historico-cultural e necessidade de preservação
do mesmo, através de um conjunto de iniciativas e
acções de âmbito local, como por
exemplo a realização de uma
exposição intitulada "Um Mergulho na
História - A arqueologia Subaquática no Rio
Arade", levada a cabo pelo Museu Municipal de Portimão, em
2002 e neste momento em exibição no Museu
Nacional de Arqueologia até Dezembro de 2003.
Ainda antes da implantação da
indústria conserveira, responsável pelo grande
impulso económico-social do município,
já a zona ribeirinha se encontrava relacionada com certas
actividades com a pesca e a construção naval em
Portimão.
Estaleiros de Portimão
Esta actividade conduziria nomeadamente à
implantação e desenvolvimento dos estaleiros em
Portimão, ficando a dever-se nomeadamente, ao aproveitamento
dos abrigos naturais da costa, praias e sapais e à
proximidade da serra e das matas, de onde provinha amadeira. Este facto
é testemunhado em alguns documentos como o foral novo de D.
Manuel, de 1504, onde há referências ao
desenvolvimento desta actividade e no qual o monarca concede
privilégios e isenções aos
construtores de embarcações.
Os estaleiros de Portimão localizavam-se em três
áreas principais: São José,
São Francisco e Estrumal.
A realidade dos estaleiros em Portimão e a sua
evolução até ao seu culminar na actual
mudança para a margem esquerda do rio Arade é
abordada pelo Museu Municipal de Portimão, o qual produziu
uma exposição em exibição
neste momento, intitulada "Da madeira ao Barco - Os estaleiros de
Portimão", que se encontra patente na Fábrica de
Conservas Feu, até Outubro de 2003. Esta procura retratar as
principais fases de construção naval em
Portimão e a sua evolução
técnico-profissional ao longo dos tempos, até
à actualidade, relacionadas com o evoluir das
próprias actividades, desde os tempos aúreos das
conservas, até ao turismo, com o aparecimento dos primeiros
barcos de recreio e desporto.
As Fábricas de Conservas
Em finais do século XIX, inícios do
século XX, implantou-se nas margens do rio Arade um dos
grandes centro industriais conserveiros do país,
constituído pelas fábricas de
Portimão, do Parchal, Ferragudo e Mexilhoeira, marcando o
arranque desta indústria neste território.
Relacionada com o incremento que a pesca da sardinha conhece, pelo
menos desde o século XVI, e a importância que a
sua comercialização assume nas rotas de
comércio marítimo, sobretudo com o exterior, esta
indústria nasce das formas mais rudimentares de alguns
métodos de conservação do pescado,
desde a Antiguidade utilizados pelas populações
marítimas e que numa primeira fase se processou de acordo
com 3 princípios: secagem, salga e fumagem. É
neste contexto de conservação, nomeadamente do
pescado, que o sal e a instalação de salinas em
Portimão adquirem importância fundamental,
remontando a sua existência a 1483, altura em que, o
então senhor da vila, D. Gonçalo Vaz de Castelo
Branco é autorizado por Dom João II, a construir
umas marinasno Sapal. Estas, juntamente às de Alvor, por
volta de 1600, abasteciam Lagos e eram exportadas para Espanha,
Itália e Grécia.
A primeira fábrica de conservas de peixe em azeite
aí implantada foi iniciativa de um rico industrial e
proprietário - João António
Júdice Fialho, em 1891. A esta vir-se-ia juntar uma outra em
1903 - a São Francisco, desta feito de um industrial
andaluz, D. Caetano Feu. Estes seriam dois dos mais importantes
industriais conserveiros locais, fomentadores de modelos empresariais
auto-suficientes que incluíam estaleiros, frota pesqueira e
actividades complementares à produção
das conservas e à pesca.O contexto da Primeira Grande Guerra
foi de importância fulcral para o desenvolvimento desta
indústria já que absorveu toda a
produção de conservas, sobretudo para a
França, sendo inclusivamente responsável por uma
das primeiras alterações tecnológicas
aí operadas, forçando as unidades fabris a
equiparem-se com máquinas mais modernas. Assim, a
indústria de conservas de peixe desenvolveu uma grande
especialização e divisão
técnica do trabalho o qual, se foi pouco a pouco
mecanizando, conduzindo inclusivamente a grandes lutas sociais contra a
introdução de máquinas, em especial
das cravadeiras. Nesta altura, cerca de dois terços da
população vive da pesca ou da
indústria. Empregando na secção de
confecção da conserva, trabalho maioritariamente
feminino, asmulheres tinham que acorrer às
fábricas assim que chegasse peixe, sendo avisadas pelos
apitos das sirenes aí existentes e distintos entre si pelo
som ou número de toques.
Por volta de 1931, Portimão exporta para a Inglaterra,
América do Norte, Alemanha e França, sendo que
após a II Guerra Mundial (em 1946) e devido à
forte procura que esta originou, são conhecidas vinte e uma
fábricas no centro industrial conserveiro de
Portimão, com trinta e nove marcas de conservas conhecidas e
colocadas em todaa Europa, por agentes das empresas exportadoras, de
entre as quais se destaca as famosas conservas La Rose, produzidas na
fábrica Feu, ou Marie Elisabeth, de Júdice
Fialho. Desde a sardinha e ovas de sardinha em azeite ou de escabeche,
ao atum, passando pela cavala, carapau, biqueirão, entre
outros, várias foram as espécies aproveitadas
para fazer aquelas que eram consideradas das melhores conservas de
peixe do mundo.
No entanto, a partir dos anos sessenta, os sectores mais tradicionais
de actividade entram em crise, à qual não
escaparia a indústria conserveira. A falta de pescado, de
investimento na modernização do equipamento
industrial, a falta de apoios estatais, a concorrência
espanhola e marroquina, o aumento dos salários e a
obrigatoriedade de contratação colectiva
após 1974, conduziram ao declínio deste sector.
A cidade vira-se então para a recepção
turística, cujo desenvolvimento vinha sendo evidenciado
desde os anos cinquenta, embora o grande boom se tenha feito sentir
sobretudoa partir dos anos sessenta.
O Turismo em Portimão
A Praia da Rocha
Portimão tem várias praias (a Praia da Rocha, a
Praia dos Careanos, a Praia do Vau, a do "Alemão", a de
"João de Aréns", a Prainha e a Praia dos
Três Irmãos), todas com uma relativa fama, embora
tenha sido a Praia da Rochaa que mais se destacou.
Considerada por muitos como a "rainha das praias algarvias", a Praia da
Rocha foi o expoente máximo do turismo algarvio dos anos
cinquenta aos nossos dias. Anteriormente já era tida como
uma das mais bonitas praias algarvias, pelo recorte dos seus rochedos,
pela luminosidade aí existente, pelo seu clima
único e pelo seu mar calmo e tépido. Manuel
Teixeira Gomes, evocou estas praias nas suas prosas, descrevendo as
representações sensuais, estéticas,
paisagistas em seu redor, a qualidade da areia e a amenidade da
água, comparando-as às paisagens gregas e
mediterrânicas.
Os Primeiros Turistas
Não obstante, esta praia, durante muito tempo conhecida como
a praia de Santa Catarina, recebia já alguns banhistasque se
alojavam nas casas e quintas aí existentes, durante a
época alta, geralmente naturais de outras localidades do
Algarve (Olhão, Silves, Loulé, Faro), mas
também alentejanos, espanhóis andaluzes e um ou
outro inglês. Ainda assim, eram muito reduzidas e
efémeras, pois os viajantes dirigiam-se para as termas de
Monchique, sendo até ao século XX, as praias do
Algarve consideradas inóspitas, só aí
habitando os pescadores e certos aventureiros, escritores e artistas.
Os Primeiros Hotéis
Já nos finais do século XIX começaram
a oferecer-se em Portimão serviços de alojamento
e alimentação, geralmente a pessoas que vinham
tratar de negócios. Havia dois cafés
(Café-Restaurant Traquino e o Café
Democrático) e quatro pequenos hotéis situados no
centro da vila (Hotel Françês, Hotel Soromenho,
Hotel Central e Hotel Sansão). Em 1908, a Praia da Rocha era
já conhecida como estância balnear, se bem que
não tivessem ainda sido criadas infra-estruturas de
acolhimento aos banhistas. É na vilaque as
famílias encontram alojamento com mais facilidade,
esgotando, na época de banhos, hotéis,
pensões e casas de aluguer.Hotel Viola
Este hotel, construído na Praia da Rocha, ainda na primeira
década do século, não conseguia
suportar a procura. Muitos turistas ficavam alojados em vãos
de escada, compartilhando o quarto com outros hóspedes, ou
eram obrigados aficar na cidade. Mas, em 1932, a empresa hoteleira
Praia da Rocha acabou por remodelar o Hotel Viola, dotando-o de oitenta
quartos, casa de banho, sala de jantar e sala de visitas e inaugurou o
Grande Hotel da Rocha. Em 1934, o crescente movimento de
espanhóis, começa a reflectir-se na
ocupação das melhores casas pela nobreza
andaluza. Entretanto, os ingleses vão aparecendo cada vez
mais frequentemente, embora preferissem a estação
invernal, enquanto os americanos são ainda raros.
Hotel Bela Vista
A Praia da Rocha viria a contar com outro hotel, o Hotel Bela Vista
(1936), ocupando a vivenda Magalhães Barros. Este era
considerado o mais bonito hotel da Praia da Rocha, sendo disputado por
famílias inglesas que procuravam a amenidade dos dias de
Inverno, sendo hoje distinguido como um hotel de "charme", pela
elegância do seu edifício, dos seus interiores e
da excelente localização, de onde se observa uma
das mais interessantes panorâmicas das falésias e
da envolvente oceânica, frente à Praia da Rocha.
O casino da Praia da Rocha
A abertura do casino da Rocha, onde hoje existe o Hotel Oriental, a 1
de Agosto de 1910, foi um sintoma da crescente procura desta
estância balnear e marca uma fase de melhoramentos que
vão atrair a aristocracia do Sul do País e da
Andaluzia. O Casino, cumprindo a sua função de
salão de jogos e de diversões, convidava
bailarinos, cantores, músicos e poetas para
cabeça de cartaz dos seus programas, proporcionando aos
banhistas, ocupação para os momentos mais
"mortos" e uma oportunidade para o convívio da alta
sociedade. Vivia-se um ambiente ousado na Praia da Rocha provocado pela
agitação do jogo e do prazer.
Actualmente, um novo casino, instalado no Hotel Algarve, continua a
cumprir essa função.O Pavilhão Avenida
Por seu lado, o Pavilhão Avenida, entre o Casino e o Hotel
da Rocha, beneficiava de um recinto ao ar livre onde se fazia
projecções de filmes, aí afluindo a
população local que ficava num espaço
coberto, enquanto as elites assistiam ao filme protegidas por um
varandim. Também aqui havia uma banda de jazz e, a partir de
1930, começaram a promover-se concursos para a
eleição da Rainha das Praias do Algarve
Alojamentos
Em 1911 verificou-se uma elevada procura de casas, pelo que algumas
pessoas de Portimão aí as construíam e
alugavam. Ainda nesse mesmo ano, em Abril, criaram-se
comissões (de alojamentos e itinerários) para a
recepção aos "turistes" e, em 1915, realiza-se,
então o I Congresso Regional Algarvio.
Ainda neste período, as termas entram em declínio
e aos poucos, as pessoas começam a dirigir-se para as
praias. Muitos visitantes de Monchique começam a descer rumo
à Praia da Rocha, concentrando-se aí grande parte
do turismo existente na cidade de Portimão, uma vez que o
centro não oferecia os atractivos procurados ( como por
exemplo a praia e o casino, um dos principais atractivos
turísticos da altura).
À medida que o fenómeno turístico ia
conhecendo alguma expansão, começou a
estabelecer-se uma relação visível
entre hóspedes e hospedeiros, por exemplo, na
imitação de alguns hábitos locais
pelos primeiros. Com efeito, em Maio, era costume a aristocracia local
ir a banhos e, a partir de certa altura, os turistas
começaram a segui-los.Os espanhóis eram os
hóspedes mais frequentes, uma vez que o Algarve e a
Andaluzia se encontravam ligados por laços
económicos e culturais.
A época balnear começava por volta de finais de
Maio e prolongava-se pelo mês de Outubro. Embora a praia
fosse procurada nos meses de Inverno era, sobretudo, durante o
Verão, que mais afluência registava. Em 1927
frequentavam a praia uma média de setecentos banhistas por
ano, distribuídos por cerca de cem casas de aluguer e pelo
Hotel Viola. Em 1936 o seu número ascendeu para mil,
anualmente.Frequentadores locais da Praia da Rocha
Nesta altura, os naturais de Portimão começaram a
apreciar de outra forma aquilo que sempre tiveram e que os turistas
consideravam um bem único: a praia. Havia quem, de
manhã, antes de iniciar o seu dia de trabalho, juntamente
com o resto da família fosse até à
praia tomar um banho de mar. Os mais abastados passeavam pela areia
absorvendo e desfrutando todo o ambiente à sua volta:
"(...) As crianças brincavam na areia sob o olhar vigilante
das criadas. As meninas despiam-se sorrateiramente entre os rochedos e
trocavam confidências. Por vezes, no alto da
falésia, escondido entre os arbustos, um folgazão
saboreava sozinho esses momentos de intimidade. As estrangeiras, mais
ousadas, expondo cada vez mais o corpo ao sol à medida que o
fato de banho ia reduzindo, eram a atracção
preferida dos moços do campo e da cidade." (VENTURA e
MARQUES:1993:96)
Enquanto os turistas e as famílias mais abastadas
possuíam toldos, as pessoas de Portimão, com
menos recursos económicos, recorriam à sombra das
rochas. Aí se acomodavam, geralmente em grandes grupos e
faziam grandes piqueniques.
Jogos de Praia
Era habitual existirem antigamente (década de quarenta, mais
ou menos) no espaço da praia jogos como o "ringue" ou o
"prego". O ringue consistia numa roda que se atirava uns aos outros,
uma espécie de disco voador. O Jogo do prego, um dos jogos
mais famosos da altura consistia essencialmente em fazer um monte de
areia para o qual se jogava um prego que podia cair de
várias maneiras. O objectivo, ao jogar o prego é
que ele caísse sempre de pé . Quando o prego
não ficasse espetado na areia, passava-se o jogo a outra
pessoa.
Iniciativas ludico-desportivas na Praia da Rocha ao longo do tempo
Dito isto, o percurso efectuado pelo turismo reflectiu-se ainda a
nível de algumas iniciativas recreativas, nomeadamente
desportivas. Abriram-se campos de ténis e um de golfe (o
primeiro de todo o Algarve), organizaram-se corridas de bicicletas,
touradas, arraiais, mercados saloios, concursos de
construções na areia e fogos de
artifício. No entanto, era no Casino, única zona
de jogo autorizada no Sul do país e no Pavilhão
Avenida que se desenrolavam os principais programas recreativos.
Promoviam-se conferências, seguidas de música ao
vivo com orquestras de jazz, bailes e outros divertimentos.
Aí se homenageavam também várias
personalidades locais.
Festas de Santa Catarina
Em plena época balnear, começaram a realizar-se
as Festas de Santa Catarina (tiveram início no ano de 1929).
Moradores da cidade e visitantes aí afluíram em
grande número, durante cerca de quarenta anos. A
comissão organizadoraera constituída por D.
Cayetano Feu, João Josino da Costa e José
Simões Quintas. Estes viriam a formar também a
Comissão de Iniciativa da Praia da Rocha (1930),
impulsionadora de alguns melhoramentos aí realizados na
década seguinte. Estas festas eram constituídas
por um programa muito extenso. Incluía a alvorada, missa
campal, procissão, concertos para bandas, arraial, verbena,
fogos-de-artifício e iluminação
especial. Enquanto isto, no mar, junto à Fortaleza de Santa
Catarina, dispunham-se os galeões dos industriais de
conservas. No Casino, à noite, continuava-se a festa, desta
vez pagã.
"Boom" Turístico
Assim, apenas no contexto da II Guerra Mundial, mas sobretudo no
pós-guerra (anos cinquenta/ sessenta) se notou claramente
alguma evolução no turismo aí
existente. Começaram a aparecer mais ingleses, que vieram a
condicionar fortemente o nosso turismo pela sua constante
presença e construção de
edifícios turísticos, mostrando uma certa
preferência pela região.
Nas décadas seguintes, a sua avenida e ruas adjacentes foram
povoadas por bares, restaurantes, lojas de artesanato e de souvenirs e
discotecas. O velho Casino que tinha entretanto fechado por falta de
condições e de iniciativa, reabre.
A grande afluência turística verificou-se,
sobretudo, a partir de 1965, com a abertura do aeroporto de Faro, que
permitiu novos fluxos de turistas de diferentes nacionalidades. Havia
também uma rede de autocarros que ligava todas as cidades,
vilas e aldeias da província, combinada com outras do
país.
A própria praia se transformou: o seu areal tornou-se mais
extenso devido às obras de desassoreamento do rio Arade,
levadas a cabo na década de setenta.
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