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Portimão Núcleo urbano e evolução histórica

O núcleo urbano de Portimão remonta ao século XV, tendo sido nesta data iniciada a construção das suas muralhas, as quais limitavam um polígono irregular, que se estendia da margem do rio para o interior.
Na sequência da formação deste núcleo urbano e do seu crescimento, esta terra recebe o titulo de vila e o foral em 1504, por D. Manuel I.
Porém, a partir do século XVIII, as muralhas já não satisfazem as necessidades militares de defesa, tendo sido absorvidas pelas habitações construídas extra-muros, resultantes da expansão da vila Ainda hoje esse facto pode ser constatado através dos panos das muralhas adossados às casas, entre o Postigo dos Fumeiros e a Porta da Serra e entre esta e a porta de São João.
Dado o desenvolvimento económico e social e o consequente crescimento demográfico e territorial de Portimão, Manuel Teixeira Gomes, personagem ilustre da terra, escritor, comerciante e político, eleito presidente da República em 1923, eleva Portimão a cidade em 1924, daí resultando a escolha desta datapara assinalar as comemorações do dia da cidade.

Pré-história

Alcalar
Em Alcalar, na freguesia da Mexilhoeira Grande, a 9 km de Portimão, existe um conjunto de vestígios pré-históricos, testemunhando a existência de uma das primeiras comunidades locais conhecidas do 4º e 3º milénios a.C.. Este conjunto pré-histórico é constituído por duas dezenas de sepulcros, um povoado central e cinco periféricos. O local apresentava uma gama ampla de recursos e factores naturais, como um vasto lençol de água que compreendia a ria de Alvor e a ribeira da Torre do Farelo e do Arão, que permitia a subsistência do grupo, justificando a escolha do espaço para a sua implantação. Aí praticavam actividades, tais como a agricultura, pastorícia, caça, marisqueio, pesca, moagem, tecelagem, olaria, metalurgia do cobre, entre outras. A necrópole evidencia-se pela grande riqueza e diversidade dos tipos de construção dos monumentos funerários, caracterizados por três formas distintas, designadas de hipogeu, anta e tholos. Dada a importância do conjunto foi classificado Monumento Nacional e o IPPAR restaurou e enquadrou os monumentos n.º 7 e nº 9, que se encontram visitáveis através do Centro Interpretativo de Alcalar.

Arquitectura Religiosa

Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição
Dentre os edifícios religiosos destacam-se: a igreja matriz Nossa Senhora da Conceição, construída no século XV (1476), de fisionomia barroca e com um portal gótico. Esta foi profundamente alterada ao longo dos séculos, designadamente em consequência do terramoto de 1755, mais não restando do edifício original que o seu pórtico principal e as pias de água benta em grés de Silves, com decoração Manuelina.

Colégio dos Jesuítas
Em 1660 deu-se ainda o início da construção do edifício do Colégio dos Jesuítas, na Praça da República, em frente do qual se situava o rossio e o pelourinho. Esta igreja foi recentemente objecto de obras de conservação e restauro da sua fachada e exteriores, valorizando assim a área envolvente.

Convento de São Francisco
O convento de São Francisco foi construído no séc. XVI, por volta de 1530, junto ao rio a partir de uma doação de casas de Simão Correia, capitão de Azamor, aos Padres Observantes da Província de Portugal. No século XIX, após a extinção das Ordens e a venda do seu património, este edifício teve várias finalidades, desde depósito de cortiça, a local ligado à construção naval e às conservas da empresa Júdice Fialho.Em 1983 é reconhecida oficialmente a sua importância enquanto Imóvel de Interesse Público, permanecendo na actualidade propriedade privada dos herdeiros de Júdice Fialho.

Arquitectura Militar

Fortaleza de Santa Catarina
A necessidade de defesa do rio e das populações ribeirinhas das margens do Arade, contra as incursões do corso e pirataria, levou a que, em 1621, o engenheiro italiano Alexandre Massai, ao serviço da coroa portuguesa, elaborasse um estudo sobre as hipóteses defensivas do rio Arade. Elaborou desenhos de três pareceres relacionados com a construção de uma fortaleza na ponta da Praia da Rocha, no sítio de Santa Catarina, nome da santa a que se prestava culto na ermida aí existente, já que aquela oferecia boas condições de defesa da barra do rio.
A construção incluiu um fosso e ponte levadiça diante da entrada a Norte, de que hoje já não restam quaisquer vestígios. Porém, dessa construção do século XVII, existe ainda a face norte da muralha que se vislumbra quando se chega à fortaleza, bem como restos de muros a Nascente e a Poente. Para além disso, existem seis canhoeiras (abertura efectuado nos parapeitos através da qual as bocas de fogo atiram) sobre o muro da porta de entrada e três a Poente. No interior da fortaleza encontra-se a capela de Santa Catarina que passou para o interior da construção, já que não podia ficar no exterior do núcleo fortificado. Existem também algumas casas térreas que serviram de posto da Guarda Fiscal, funcionado actualmente como dependência da Capitania do Porto de Portimão. A partir da década de sessenta este miradoiro foi gradualmente sendo adaptado a zona de lazer onde se construíram restaurantes e se organizaram bailes e outras actividades culturais e recreativas. Actualmente, esta zona perdeu praticamente todas as conotações com a vertente militar, encontrando-se sobretudo associada a rituais de lazer, patente em espaços como as esplanadas, ou enquanto lugar de passeio e um excelente miradouro sobre o oceano, sobre as falésias de Ferragudo, Portimão e Lagos.

Arquitectura Civil

Palácio Bívar
Dos edifícios civis destacam-se o Palácio Bívar, construído no Largo do Sapal, na última década do século XVIII, com traça neo-clássica e reminescências barrocas. Pertencente à família Bívar, influente na política local e promotores de vários melhoramentos na terra, encontrando-se actualmente aí instalada a Câmara Municipal de Portimão.

Fábrica Feu
Reconhecendo a importância da indústria de conservas de peixe no contexto de desenvolvimento económico e social local e actualmente enquanto parcela fundamental do património industrial e da memória colectiva local, o município de Portimão adquiriu em 1996 a antiga fábrica de conservas Feu, construída no final do século XIX, com vista ao seu reaproveitamentocomo museu. No âmbito da divulgação da história local, desde a pré-história ao turismo, o projecto de musealização da fábrica pretende reflectir sobre a identidade, o território e a sociedade local, sendo que a vida industrial e o desafio do mar estarão icomo museu. No âmbito da divulgação da história local, desde a pré-história ao turismo, o projecto de musealização da fábrica pretende reflectir sobre a identidade, o território e a sociedade local, sendo que a vida industrial e o desafio do mar estarão igualmente presentes como núcleo de forte ligação à cultura marítima do município e da região.
Aí, enquanto não se iniciam as obras de adaptação ao futuro museu, previstas para 2004, realizam-se exposições temporárias, cujo destaque vai neste Verão de2003, para a exposição "Da Madeira ao Barco - Os Estaleiros de Portimão".

Ponte Rodoviária
O desenvolvimento socio-económico da região levou à criação de algumas estruturas locais. No último quartel do século XIX, a zona ribeirinha vê transformada a sua paisagem com a construção de um aterro no rio iniciado em 1863, com vista à introdução da ponte rodoviária, construída pela Companhia Five Lille, sob a direcção do engenheiro Bonnet, com início em Janeiro de 1875 e conclusão e o escoamento das mercadorias provenientes do mar e do interior. Custara 179.946$00 e levou quase dois anos a ser construída.
A ponte rodoviária era uma pretensão dos portimonenses, pois a vila assumia-se cada vez mais como centro comercial e um polo central da bacia do Arade.
Esta ponte tornou-se um prolongamento do passeio público do cais que, "nas noites de Verão, se [a] percorria de um lado ao outro, para olhar o rio, as luzes da vila, Ferragudo ou a fortaleza de Santa Catarina.".

Ponte Ferroviária
A ponte ferroviária foi construída em 1915 pela Empresa Industrial Portuguesa.
A ponte é metálica, com 300 m de comprimento e 6 tramos dotados de vigas em arco de ferro, assente em pilares de cantaria.

Barca de Passagem
Antes da construção das duas pontes, a travessia das margens do Arade era feita através de barcas, a partir do Largo da Barca, junto à ponte rodoviária, actualmente funcionando como um dos locais mais característicos da zona ribeirinha, onde se instalaram vários restaurantes de peixe assado. A barca transportava pessoas e mercadorias e a sua actividade terminou com a construção das pontes.

Molhes
Desde 1929 que o porto de Portimão entrou numa fase activade melhoramentos, baseado em dragagens, de forma a incrementar o movimento dos navios de pesca e de pequena cabotagem. Em 1956, constroem-se os molhes de entrada na barra, tornando-a uma das mais seguras do país.

Espaços Públicos

A zona ribeirinha foi ainda palco privilegiado das sociabilidades da época. Frequentada enquanto local de diversão, esta acolheu vários espaços lúdico-culturais muito procurados:

Praça Manuel Teixeira Gomes
A actual Praça Teixeira Gomes, denominada, durante a monarquia Praça Visconde Bivar e compreendendo o espaço entre o Jardim Bivar e a Casa Inglesa, foi assim baptizada em 1950, em homenagem ao antigo Presidente da Républica, Manuel Teixeira Gomes, personagem ilustre de Portimão, escritor, comerciante e político.
Com a euforia dos anos 20, esta praça de raiz oitocentista adquiriu uma vida enorme com a criação de café-restaurants onde se organizavam bailes.

Coreto
No centro da Praça existia um coreto, que desde 1925, ano da sua inauguração, era palco de concertos frequentes, geralmente anunciados na imprensa local. De resto, todas as festas e cerimónias oficiais culminavam sempre com um concerto no coreto. Hoje, e após a sua demolição nos anos 60, temos no seu lugar, um monumento em homenagem a Manuel Teixeira Gomes.

Cinemas
Adjacente à Praça Manuel T. Gomes, no aterro do cais, em 1912, ergueu-se um barracão onde, desde o inicio do século funcionava o Animatógrafo, propriedade do Sr. António do Carmo Provisório. O cinema mudo, era abrilhantado pelos grupos musicais da terra, entre os quais o Fraternidade Philarmónica Recreativa. Em 1926, o barracão foi arrendado pela Orquestra Semifúsica, uma "magnífica jazz-band", que atrairia ao modesto barracão com telhado de zinco, os amantes do teatro e do cinema, passando as fitas mais modernas e convidando companhias de teatro como a Maria Matos Mendonça de Carvalho e artistas reputados como Mirita Casimiro e Vasco Santana.
A falta de higiene, apesar dos sucessivos melhoramentos, e a necessidade de arranjos no Largo do Dique, levou a Junta Autónoma dos Portos a demolir o Barracão, depois da construção, em 1938, de um outro cinema moderno e confortável, o Cine-Teatro de Portimão, de raiz modernista, o qual foi demolido no final do século XX.

Jardim Bívar (1905)
Era um jardim delimitado por uma sebe de arbustos, um lago central com repuxo, dando à entrada da vila um aspecto gracioso, fresco e agradável ponto de encontro nas tardes estivais e noites calmas. Em 1942, inaugura-se aí o busto do cidadão portimonense, Visconde Bívar, no que era então considerado o jardim principal de cidade.

Largo 1º de Dezembro
O largo 1º de Dezembro, na baixa da cidade, é constituído pelo Palacete Sárrea, o qual foi construído a partir de um edíficio já existente, apresentando reminiscências barrocas num conjunto marcadamente neoclássico. A sua construção foi terminada entre 1793 e 1796. Este pertenceu à família Sárrea, grandes proprietários, desempenhando importantes cargos nas estruturas militares e económicas, que lhes valeram a inclusão nas oligarquias políticas municipais.
Com o advento da República, o edifício ganha novas funções, sendo adquirido pelo executivo camarário em 1915, onde se instalam os Paços do Concelho, até 1956. Neste edifício funcionaram ainda outros serviços públicos como o primeiro Posto de Correios e Telégrafos, Biblioteca Municipal, Posto de Turismo, Guarda Nacional Republicana e o Tribunal da Comarca.
Fronteiro ao Palacete Sárrea, existiu uma praça, designada Praça do Município, devido à instalação da Câmara Municipal, no Palacete, em 1915.
Em 1931, a praça foi dotada de um jardim, cujo o acesso é feito por uma escadaria de pedra ladeada de candeeiros Arte Nova, representando figuras femininas voluptuosas erguendo globos de vidros fosco.
Ladeando o jardim alinham-se bancos de azulejos com painéis historiados ( quadros da História de Portugal), azulejos estes colocados em Junho desse mesmo ano.
Passou à designação actual em1956, aquando da mudança dos serviços camarários para as actuais instalações no palácio dos Viscondes de Bívar, no Largo 1º de Maio.

Transportes

As carrinhas
No que respeita aos transportes locais tradicionais, os mais conhecidos e populares eram as carrinhas. Estas eram tanto utilizadas por visitantes como por naturais da cidade, e revelavam-se como um dos meios de transportes mais atractivos para os turistas pela sua "tipicidade". Foi assim que se estabeleceu um negócio à sua volta, passando a funcionar como táxis. Geralmente, encontravam-se acessíveis no Largo do Dique (Casa Inglesa), onde os banhistas negociavam o preço da viagem e, muitas vezes, tinham de esperar que a mesma lotasse (levava seis pessoas no máximo) para os conduzir à Praia da Rocha. No IV Colóquio Nacional de Turismo (1961) faz-se referência a essas "charretes", ou "carrinhas" (denominação mais comum), especificando o seu percurso como um género de passeio turístico pela cidade. "Pelo caminho passa-se pelo "cinema, a capitania do porto, o bairro operário, as fábricas conserveiras, os estaleiros, os campos onde as casas se principiam a isolar e termina-se bruscamente no alto da falésia sobranceira ao mar."
O seu percurso era feito pela estrada da que dava acesso á Rocha, num percurso paralelo ao rio, passando pelas fábricas Feu, pelo convento de São Francisco e pela fábrica do Fialho, no Estrumal.

Gastronomia

A cozinha tradicional algarvia traduz uma dualidade já que mistura a cozinha da serra e barrocal e do mar. Da terra extraem-se produtos como as favas, ervilhas, tomate, meloa, laranja, o figo, a amêndoa, a alfarroba. Partindo destes produtos confeccionam-se pratos como as papas de milho, que faziam parte da dieta alimentar quotidiana destas gentes. Do mar extraem-se desde uma variedade de mariscos (camarão, lagostim, santola, lagosta, percebes) a uma panóplia de espécies de peixes, de onde se destaca a sardinha como fazendo desde sempre parte da cozinha do Algarve, presente na dieta alimentar quer de ricos, quer dos mais humildes. A importância do pescado justificou a necessidade de criar formas de conservação como a salga ou a secagem. A salga, método ancestral que vem desde os romanos, originou a exploração das salinas outrora muito abundantes em Portimão e nas margens do Arade, das quais resta apenas a salina do Aleixo, na Mexilhoeira da Carregação, no município vizinho de Lagoa.
Ponderando ainda o facto da cozinha algarvia jogar, pela localização geográfica e clima, com as suas influências mediterrâneas, produtos como o pão, o azeite, o alho e o vinho são elementos imprescindíveis no completar da refeição.
Hoje em dia, junto à zona ribeirinha, muito embora disseminados por todo o Portimão, é possível degustar algumas das iguarias típicas do Algarve nos vários restaurantes aí existentes.
Os mariscos algarvios para além da lagosta de Sagres ou do camarão são na sua maioria bivalves, como a ameijoa, o berbigão, a conquilha ou o langueirão, podendo ser apreciados na chapa ou frigideira, ou integrar receitas como a cataplana, o xarém, o arroz de berbigão ou langueirão e a feijoada de buzinas.
Dos pratos de peixe merecem destaque apopular sardinha assada, a acompanhar com a salada picada de tomate e pimento assado e com a batata de molho frio, popularmente designada "batata de cu para o ar", ou o carapau alimado e a cavala cozida em oregãos. Segundo referem alguns mestres da culinária algarvia, no Inverno os carapaus são acompanhados com batata branca cozida, alho, azeite e vinagre, ou se for tempo de batata doce, por esta em vez da batata branca. Por outro lado, também se poderá optar por alguns pratos mais relacionados com a vertente rural algarvia e nesse âmbito surge, por exemplo, o xarém de berbigão, ou seja, as papas de milho cozinhadas com berbigão.
Para rematar esta refeição pode recorrer a uma fruta, como a laranja, a meloa, figos ou a um doce.As amêndoas constituem a base dos principais doces regionais algarvios. Juntamente com o figo e a alfarroba, são desde há longa data, colhidos e preparados para esta finalidade. Desde as antigas ceiras de figo e de amêndoa, preparadas nos diversos fumeiros existentes em Portimão e empregando muita mão de obra feminina, cuja maior produção se destinava à exportação, à preparação da mais fina doçaria como os Dom Rodrigo ou os Morgados, estas iguarias são fruto do trabalho artesanal de verdadeiros artistas locais.
Os Dom Rodrigo, doce à base de fios de ovos, amêndoa, calda de açúcar e canela, são doces conventuais, cujas origens se julgam reportar ao século XVIII, mais precisamente a 1755, altura do terramoto. Actualmente existem ainda em Portimão, muitas doceiras artesanais e locais como a pastelaria Almeida, em frente ao Largo 1º de Dezembro, onde este doce continua a ser confeccionado nos moldes mais tradicionais, mantendo os produtos naturais e originais na sua cadeia de produção, evitando as essências e outros derivados com os quais alguns adulteram o sabor e sua consistência.
Outras doçarias que juntas a amêndoa aos figos, são o queijo de figo, as estrelas, ou os figos cheios. O queijo de figo é geralmente confeccionado no final do Verão e conservado até ao primeiro de Maio, altura em que é "libertado" e saboreado. Segundo José Vila em "Coisas da Terra e do Mar - Sabores da cozinha algarvia": "No dia 1º de Maio, era comum dizer-se que iam soltar o preso, provavelmente frase alusiva ao dia que se comemora: (...) seria o simples acto de libertar o queijo que durante longo tempo se manteve em cativeiro, cercado pelo arco que o envolvia e o peso que o esmagava. Pela manhã desse dia, as casas eram surpreendidas com visitas amigas, onde se partilhavao partir do queijo, acompanhado por aguardente de medronho. Chamava-se rolhar o Maio."

Actividades Socio-Profissionais

O rio Arade, desde o início da ocupação humana foi alvo de diferentes formas de aproveitamento pelas populações que nas suas margens se fixaram. Desde fonte de energia, recurso natural (a pesca, os processos de conservação do pescado, os frutos secos, asmadeiras, a produção de sal), comercial, industrial, a cultural, turístico e igualmente via de transporte e comunicação, a importância que o rio Arade assume no contexto local e regional, nacional, mas também internacional pode ser atestada a partir dos inúmeros vestígios arqueológicos que se encontram submersos no seu leito. O município vem chamando a atenção para este importante legado historico-cultural e necessidade de preservação do mesmo, através de um conjunto de iniciativas e acções de âmbito local, como por exemplo a realização de uma exposição intitulada "Um Mergulho na História - A arqueologia Subaquática no Rio Arade", levada a cabo pelo Museu Municipal de Portimão, em 2002 e neste momento em exibição no Museu Nacional de Arqueologia até Dezembro de 2003.
Ainda antes da implantação da indústria conserveira, responsável pelo grande impulso económico-social do município, já a zona ribeirinha se encontrava relacionada com certas actividades com a pesca e a construção naval em Portimão.

Estaleiros de Portimão

Esta actividade conduziria nomeadamente à implantação e desenvolvimento dos estaleiros em Portimão, ficando a dever-se nomeadamente, ao aproveitamento dos abrigos naturais da costa, praias e sapais e à proximidade da serra e das matas, de onde provinha amadeira. Este facto é testemunhado em alguns documentos como o foral novo de D. Manuel, de 1504, onde há referências ao desenvolvimento desta actividade e no qual o monarca concede privilégios e isenções aos construtores de embarcações.
Os estaleiros de Portimão localizavam-se em três áreas principais: São José, São Francisco e Estrumal.
A realidade dos estaleiros em Portimão e a sua evolução até ao seu culminar na actual mudança para a margem esquerda do rio Arade é abordada pelo Museu Municipal de Portimão, o qual produziu uma exposição em exibição neste momento, intitulada "Da madeira ao Barco - Os estaleiros de Portimão", que se encontra patente na Fábrica de Conservas Feu, até Outubro de 2003. Esta procura retratar as principais fases de construção naval em Portimão e a sua evolução técnico-profissional ao longo dos tempos, até à actualidade, relacionadas com o evoluir das próprias actividades, desde os tempos aúreos das conservas, até ao turismo, com o aparecimento dos primeiros barcos de recreio e desporto.

As Fábricas de Conservas

Em finais do século XIX, inícios do século XX, implantou-se nas margens do rio Arade um dos grandes centro industriais conserveiros do país, constituído pelas fábricas de Portimão, do Parchal, Ferragudo e Mexilhoeira, marcando o arranque desta indústria neste território. Relacionada com o incremento que a pesca da sardinha conhece, pelo menos desde o século XVI, e a importância que a sua comercialização assume nas rotas de comércio marítimo, sobretudo com o exterior, esta indústria nasce das formas mais rudimentares de alguns métodos de conservação do pescado, desde a Antiguidade utilizados pelas populações marítimas e que numa primeira fase se processou de acordo com 3 princípios: secagem, salga e fumagem. É neste contexto de conservação, nomeadamente do pescado, que o sal e a instalação de salinas em Portimão adquirem importância fundamental, remontando a sua existência a 1483, altura em que, o então senhor da vila, D. Gonçalo Vaz de Castelo Branco é autorizado por Dom João II, a construir umas marinasno Sapal. Estas, juntamente às de Alvor, por volta de 1600, abasteciam Lagos e eram exportadas para Espanha, Itália e Grécia.
A primeira fábrica de conservas de peixe em azeite aí implantada foi iniciativa de um rico industrial e proprietário - João António Júdice Fialho, em 1891. A esta vir-se-ia juntar uma outra em 1903 - a São Francisco, desta feito de um industrial andaluz, D. Caetano Feu. Estes seriam dois dos mais importantes industriais conserveiros locais, fomentadores de modelos empresariais auto-suficientes que incluíam estaleiros, frota pesqueira e actividades complementares à produção das conservas e à pesca.O contexto da Primeira Grande Guerra foi de importância fulcral para o desenvolvimento desta indústria já que absorveu toda a produção de conservas, sobretudo para a França, sendo inclusivamente responsável por uma das primeiras alterações tecnológicas aí operadas, forçando as unidades fabris a equiparem-se com máquinas mais modernas. Assim, a indústria de conservas de peixe desenvolveu uma grande especialização e divisão técnica do trabalho o qual, se foi pouco a pouco mecanizando, conduzindo inclusivamente a grandes lutas sociais contra a introdução de máquinas, em especial das cravadeiras. Nesta altura, cerca de dois terços da população vive da pesca ou da indústria. Empregando na secção de confecção da conserva, trabalho maioritariamente feminino, asmulheres tinham que acorrer às fábricas assim que chegasse peixe, sendo avisadas pelos apitos das sirenes aí existentes e distintos entre si pelo som ou número de toques.
Por volta de 1931, Portimão exporta para a Inglaterra, América do Norte, Alemanha e França, sendo que após a II Guerra Mundial (em 1946) e devido à forte procura que esta originou, são conhecidas vinte e uma fábricas no centro industrial conserveiro de Portimão, com trinta e nove marcas de conservas conhecidas e colocadas em todaa Europa, por agentes das empresas exportadoras, de entre as quais se destaca as famosas conservas La Rose, produzidas na fábrica Feu, ou Marie Elisabeth, de Júdice Fialho. Desde a sardinha e ovas de sardinha em azeite ou de escabeche, ao atum, passando pela cavala, carapau, biqueirão, entre outros, várias foram as espécies aproveitadas para fazer aquelas que eram consideradas das melhores conservas de peixe do mundo.
No entanto, a partir dos anos sessenta, os sectores mais tradicionais de actividade entram em crise, à qual não escaparia a indústria conserveira. A falta de pescado, de investimento na modernização do equipamento industrial, a falta de apoios estatais, a concorrência espanhola e marroquina, o aumento dos salários e a obrigatoriedade de contratação colectiva após 1974, conduziram ao declínio deste sector.
A cidade vira-se então para a recepção turística, cujo desenvolvimento vinha sendo evidenciado desde os anos cinquenta, embora o grande boom se tenha feito sentir sobretudoa partir dos anos sessenta.

O Turismo em Portimão

A Praia da Rocha
Portimão tem várias praias (a Praia da Rocha, a Praia dos Careanos, a Praia do Vau, a do "Alemão", a de "João de Aréns", a Prainha e a Praia dos Três Irmãos), todas com uma relativa fama, embora tenha sido a Praia da Rochaa que mais se destacou.
Considerada por muitos como a "rainha das praias algarvias", a Praia da Rocha foi o expoente máximo do turismo algarvio dos anos cinquenta aos nossos dias. Anteriormente já era tida como uma das mais bonitas praias algarvias, pelo recorte dos seus rochedos, pela luminosidade aí existente, pelo seu clima único e pelo seu mar calmo e tépido. Manuel Teixeira Gomes, evocou estas praias nas suas prosas, descrevendo as representações sensuais, estéticas, paisagistas em seu redor, a qualidade da areia e a amenidade da água, comparando-as às paisagens gregas e mediterrânicas.

Os Primeiros Turistas
Não obstante, esta praia, durante muito tempo conhecida como a praia de Santa Catarina, recebia já alguns banhistasque se alojavam nas casas e quintas aí existentes, durante a época alta, geralmente naturais de outras localidades do Algarve (Olhão, Silves, Loulé, Faro), mas também alentejanos, espanhóis andaluzes e um ou outro inglês. Ainda assim, eram muito reduzidas e efémeras, pois os viajantes dirigiam-se para as termas de Monchique, sendo até ao século XX, as praias do Algarve consideradas inóspitas, só aí habitando os pescadores e certos aventureiros, escritores e artistas.

Os Primeiros Hotéis
Já nos finais do século XIX começaram a oferecer-se em Portimão serviços de alojamento e alimentação, geralmente a pessoas que vinham tratar de negócios. Havia dois cafés (Café-Restaurant Traquino e o Café Democrático) e quatro pequenos hotéis situados no centro da vila (Hotel Françês, Hotel Soromenho, Hotel Central e Hotel Sansão). Em 1908, a Praia da Rocha era já conhecida como estância balnear, se bem que não tivessem ainda sido criadas infra-estruturas de acolhimento aos banhistas. É na vilaque as famílias encontram alojamento com mais facilidade, esgotando, na época de banhos, hotéis, pensões e casas de aluguer.Hotel Viola
Este hotel, construído na Praia da Rocha, ainda na primeira década do século, não conseguia suportar a procura. Muitos turistas ficavam alojados em vãos de escada, compartilhando o quarto com outros hóspedes, ou eram obrigados aficar na cidade. Mas, em 1932, a empresa hoteleira Praia da Rocha acabou por remodelar o Hotel Viola, dotando-o de oitenta quartos, casa de banho, sala de jantar e sala de visitas e inaugurou o Grande Hotel da Rocha. Em 1934, o crescente movimento de espanhóis, começa a reflectir-se na ocupação das melhores casas pela nobreza andaluza. Entretanto, os ingleses vão aparecendo cada vez mais frequentemente, embora preferissem a estação invernal, enquanto os americanos são ainda raros.

Hotel Bela Vista
A Praia da Rocha viria a contar com outro hotel, o Hotel Bela Vista (1936), ocupando a vivenda Magalhães Barros. Este era considerado o mais bonito hotel da Praia da Rocha, sendo disputado por famílias inglesas que procuravam a amenidade dos dias de Inverno, sendo hoje distinguido como um hotel de "charme", pela elegância do seu edifício, dos seus interiores e da excelente localização, de onde se observa uma das mais interessantes panorâmicas das falésias e da envolvente oceânica, frente à Praia da Rocha.

O casino da Praia da Rocha
A abertura do casino da Rocha, onde hoje existe o Hotel Oriental, a 1 de Agosto de 1910, foi um sintoma da crescente procura desta estância balnear e marca uma fase de melhoramentos que vão atrair a aristocracia do Sul do País e da Andaluzia. O Casino, cumprindo a sua função de salão de jogos e de diversões, convidava bailarinos, cantores, músicos e poetas para cabeça de cartaz dos seus programas, proporcionando aos banhistas, ocupação para os momentos mais "mortos" e uma oportunidade para o convívio da alta sociedade. Vivia-se um ambiente ousado na Praia da Rocha provocado pela agitação do jogo e do prazer.
Actualmente, um novo casino, instalado no Hotel Algarve, continua a cumprir essa função.O Pavilhão Avenida
Por seu lado, o Pavilhão Avenida, entre o Casino e o Hotel da Rocha, beneficiava de um recinto ao ar livre onde se fazia projecções de filmes, aí afluindo a população local que ficava num espaço coberto, enquanto as elites assistiam ao filme protegidas por um varandim. Também aqui havia uma banda de jazz e, a partir de 1930, começaram a promover-se concursos para a eleição da Rainha das Praias do Algarve

Alojamentos
Em 1911 verificou-se uma elevada procura de casas, pelo que algumas pessoas de Portimão aí as construíam e alugavam. Ainda nesse mesmo ano, em Abril, criaram-se comissões (de alojamentos e itinerários) para a recepção aos "turistes" e, em 1915, realiza-se, então o I Congresso Regional Algarvio.
Ainda neste período, as termas entram em declínio e aos poucos, as pessoas começam a dirigir-se para as praias. Muitos visitantes de Monchique começam a descer rumo à Praia da Rocha, concentrando-se aí grande parte do turismo existente na cidade de Portimão, uma vez que o centro não oferecia os atractivos procurados ( como por exemplo a praia e o casino, um dos principais atractivos turísticos da altura).
À medida que o fenómeno turístico ia conhecendo alguma expansão, começou a estabelecer-se uma relação visível entre hóspedes e hospedeiros, por exemplo, na imitação de alguns hábitos locais pelos primeiros. Com efeito, em Maio, era costume a aristocracia local ir a banhos e, a partir de certa altura, os turistas começaram a segui-los.Os espanhóis eram os hóspedes mais frequentes, uma vez que o Algarve e a Andaluzia se encontravam ligados por laços económicos e culturais.
A época balnear começava por volta de finais de Maio e prolongava-se pelo mês de Outubro. Embora a praia fosse procurada nos meses de Inverno era, sobretudo, durante o Verão, que mais afluência registava. Em 1927 frequentavam a praia uma média de setecentos banhistas por ano, distribuídos por cerca de cem casas de aluguer e pelo Hotel Viola. Em 1936 o seu número ascendeu para mil, anualmente.Frequentadores locais da Praia da Rocha
Nesta altura, os naturais de Portimão começaram a apreciar de outra forma aquilo que sempre tiveram e que os turistas consideravam um bem único: a praia. Havia quem, de manhã, antes de iniciar o seu dia de trabalho, juntamente com o resto da família fosse até à praia tomar um banho de mar. Os mais abastados passeavam pela areia absorvendo e desfrutando todo o ambiente à sua volta:
"(...) As crianças brincavam na areia sob o olhar vigilante das criadas. As meninas despiam-se sorrateiramente entre os rochedos e trocavam confidências. Por vezes, no alto da falésia, escondido entre os arbustos, um folgazão saboreava sozinho esses momentos de intimidade. As estrangeiras, mais ousadas, expondo cada vez mais o corpo ao sol à medida que o fato de banho ia reduzindo, eram a atracção preferida dos moços do campo e da cidade." (VENTURA e MARQUES:1993:96)
Enquanto os turistas e as famílias mais abastadas possuíam toldos, as pessoas de Portimão, com menos recursos económicos, recorriam à sombra das rochas. Aí se acomodavam, geralmente em grandes grupos e faziam grandes piqueniques.

Jogos de Praia

Era habitual existirem antigamente (década de quarenta, mais ou menos) no espaço da praia jogos como o "ringue" ou o "prego". O ringue consistia numa roda que se atirava uns aos outros, uma espécie de disco voador. O Jogo do prego, um dos jogos mais famosos da altura consistia essencialmente em fazer um monte de areia para o qual se jogava um prego que podia cair de várias maneiras. O objectivo, ao jogar o prego é que ele caísse sempre de pé . Quando o prego não ficasse espetado na areia, passava-se o jogo a outra pessoa.
Iniciativas ludico-desportivas na Praia da Rocha ao longo do tempo
Dito isto, o percurso efectuado pelo turismo reflectiu-se ainda a nível de algumas iniciativas recreativas, nomeadamente desportivas. Abriram-se campos de ténis e um de golfe (o primeiro de todo o Algarve), organizaram-se corridas de bicicletas, touradas, arraiais, mercados saloios, concursos de construções na areia e fogos de artifício. No entanto, era no Casino, única zona de jogo autorizada no Sul do país e no Pavilhão Avenida que se desenrolavam os principais programas recreativos. Promoviam-se conferências, seguidas de música ao vivo com orquestras de jazz, bailes e outros divertimentos. Aí se homenageavam também várias personalidades locais.

Festas de Santa Catarina

Em plena época balnear, começaram a realizar-se as Festas de Santa Catarina (tiveram início no ano de 1929). Moradores da cidade e visitantes aí afluíram em grande número, durante cerca de quarenta anos. A comissão organizadoraera constituída por D. Cayetano Feu, João Josino da Costa e José Simões Quintas. Estes viriam a formar também a Comissão de Iniciativa da Praia da Rocha (1930), impulsionadora de alguns melhoramentos aí realizados na década seguinte. Estas festas eram constituídas por um programa muito extenso. Incluía a alvorada, missa campal, procissão, concertos para bandas, arraial, verbena, fogos-de-artifício e iluminação especial. Enquanto isto, no mar, junto à Fortaleza de Santa Catarina, dispunham-se os galeões dos industriais de conservas. No Casino, à noite, continuava-se a festa, desta vez pagã.
"Boom" Turístico
Assim, apenas no contexto da II Guerra Mundial, mas sobretudo no pós-guerra (anos cinquenta/ sessenta) se notou claramente alguma evolução no turismo aí existente. Começaram a aparecer mais ingleses, que vieram a condicionar fortemente o nosso turismo pela sua constante presença e construção de edifícios turísticos, mostrando uma certa preferência pela região.
Nas décadas seguintes, a sua avenida e ruas adjacentes foram povoadas por bares, restaurantes, lojas de artesanato e de souvenirs e discotecas. O velho Casino que tinha entretanto fechado por falta de condições e de iniciativa, reabre.
A grande afluência turística verificou-se, sobretudo, a partir de 1965, com a abertura do aeroporto de Faro, que permitiu novos fluxos de turistas de diferentes nacionalidades. Havia também uma rede de autocarros que ligava todas as cidades, vilas e aldeias da província, combinada com outras do país.
A própria praia se transformou: o seu areal tornou-se mais extenso devido às obras de desassoreamento do rio Arade, levadas a cabo na década de setenta.
in: http://www.cm-portimao.pt/


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